O risco de prometer no marketing o que a operação não entrega
- Juliana Vicente de Souza

- 11 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 11 de dez. de 2025
Há uma armadilha silenciosa que derruba marcas todos os dias: o marketing promete, a operação não entrega. Nesse vão nasce o pior inimigo de qualquer negócio: a perda de confiança.
E o mais curioso é que, quase sempre, tudo começa com a melhor das intenções. A comunicação cria uma promessa robusta, eleva a expectativa do cliente, posiciona a empresa como referência em qualidade, prazo e experiência. Só que a operação não está preparada para sustentar esse nível de compromisso. Aquilo que foi desenhado para ser vantagem competitiva vira tiro no pé. O cliente chega carregando uma imagem idealizada da marca e encontra uma entrega comum – às vezes, até abaixo da média.
O problema é que muita empresa ainda acredita que “o marketing resolve”. Que basta uma boa narrativa para compensar uma entrega fraca. Isso até pode funcionar na primeira venda. Mas é na segunda que o negócio desmorona. Nenhuma campanha é forte o suficiente para sustentar, por muito tempo, uma reputação construída em cima de promessas vazias.
Quando a operação falha em sustentar o que o marketing promete, a frustração do cliente não morre ali. Ela transborda. Um cliente decepcionado vira mensageiro da má experiência: comenta com amigos, alerta colegas, desabafa em grupos, deixa reviews e, muitas vezes, faz questão de evitar que outros passem pelo mesmo problema. A insatisfação dele não é individual — ela se espalha em rede. E, num contexto em que a reputação é construída ou destruída na velocidade do feed, uma frustração mal gerida pode ganhar proporções muito maiores do que o erro que a originou. A empresa, que acreditava estar apenas “ajustando a operação”, descobre tarde demais que está perdendo confiança em escala.
Como alinhar promessa e entrega: onde precisa entrar o bisturi
Alinhar promessa e entrega não é “frear o marketing”, é fazer o dever de casa antes de subir o volume da comunicação. O ponto de partida é um diagnóstico honesto: o que, de fato, conseguimos entregar com consistência hoje? Sem essa resposta, qualquer promessa é só campanha bonita em cima de terreno instável.
Aqui, uma ferramenta clássica volta a ganhar relevância: a boa e velha análise SWOT (Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças). Em vez de tratá-la como exercício burocrático de planejamento, ela precisa ser usada de forma prática, com as áreas sentadas juntas: marketing, operação, comercial e financeiro. A ideia é mapear com franqueza:
Forças: aquilo que a empresa realmente faz melhor do que a média.
Fraquezas: pontos em que a entrega ainda é frágil ou inconsistente.
Oportunidades: movimentos de mercado que podem ser aproveitados se a casa estiver em ordem.
Ameaças: fatores externos que podem expor ainda mais as fragilidades internas.
A partir daí, o papel do marketing fica muito claro: potencializar as forças a tal ponto que as fraquezas não ganhem palco. Não se trata de esconder problema — o que é crítico precisa ser tratado na operação —, mas de construir a narrativa em torno daquilo que a empresa já faz muito bem, enquanto os pontos fracos são trabalhados internamente, com metas e planos de ação.
Na prática, esse alinhamento nasce de uma conversa franca. A operação coloca na mesa seus limites e capacidades reais: prazos possíveis, gargalos recorrentes, capacidade produtiva, dependências críticas. O comercial traz a leitura do campo: o que o cliente valoriza de fato, onde a expectativa está desalinhada, quais promessas estão gerando atrito. O financeiro aponta o que é viável em termos de custo, preço e margem, para que a promessa não seja economicamente inviável. E o marketing, em vez de inventar diferenciais, transforma as forças reais em proposta de valor clara, forte e verdadeira.
Alinhamento não significa ser tímido na comunicação; significa ser preciso. Melhor prometer um nível de serviço sólido e, repetidamente, entregar acima do combinado, do que vender um cenário idealizado e viver apagando incêndio. Promessa boa é aquela que a empresa consegue honrar no pior dia, não só quando tudo dá certo. Esse diálogo entre áreas, que garante que a mensagem para o mercado amplifique o que a empresa tem de melhor, sem expor — nem maquiar — o que ainda está em construção.
Quando cada área vira ponto de contato: o marketing deixa de ser departamento
Se marketing é a disciplina que cuida da promessa feita ao mercado, então qualquer ponto de contato com o cliente faz parte do trabalho de marketing — queira a empresa ou não. Isso significa que marketing não pode ser apenas um departamento responsável por posts, campanhas e eventos. Ele precisa estar, de alguma forma, conectado a todas as áreas que impactam a experiência do cliente.
Na operação, o olhar de marketing ajuda a traduzir processos internos em impacto percebido: como o prazo, o padrão de embalagem, a logística ou o suporte técnico contribuem (ou atrapalham) a percepção de valor. No comercial, o marketing garante que o discurso esteja alinhado ao posicionamento, evitando que vendedores prometam o que não está no desenho estratégico só para “fechar negócio”. No financeiro, marketing entra na discussão de preço, margem e modelo comercial, porque posicionamento e política de preços andam juntos. No jurídico, marketing influencia cláusulas que afetam diretamente a experiência — prazos, garantias, política de troca.
Quando o marketing é isolado numa “caixinha de comunicação”, a empresa cria duas realidades: a que é prometida e a que é vivida. Quando o marketing participa das decisões de produto, serviço, atendimento, política comercial e pós-venda, a promessa passa a nascer da realidade, e a realidade passa a ser construída para sustentar a promessa. É esse ciclo virtuoso que gera coerência.
No fim das contas, dizer que “marketing está em todas as áreas” não é frase bonita de palestra. É reconhecimento de que todo o negócio é, de alguma forma, experiência do cliente. E se tudo impacta o cliente, tudo impacta a marca. Por isso, marketing não pode ser apenas quem fala; precisa ser também quem ouve, traduz e influencia o desenho de como a empresa entrega aquilo que fala.
No fim do dia, marketing não é uma vitrine que funciona isolada do estoque, do prazo, da qualidade ou do atendimento. Marketing é a promessa; operação é a prova. E marca forte é construída exatamente no encontro entre as duas coisas. Empresas que prometem pouco e entregam muito crescem de forma sustentável. Empresas que prometem muito e entregam pouco crescem apenas até o cliente descobrir a verdade.
O mercado não premia discursos; premia consistência. E consistência nasce quando todas as áreas entendem que fazem parte da experiência do cliente — do primeiro anúncio ao último contato no pós-venda.
Prometer o que se pode cumprir é prudência.Cumprir mais do que se promete é estratégia.Mas prometer o que não se entrega é, sempre, um passivo reputacional esperando para explodir.
No final, a equação é simples:Marketing define a expectativa. Operação define a reputação. E reputação define o futuro.


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